Explanation of the Saint Tridentine Mass Rubrics.

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domingo, 29 de setembro de 2019

[Sermão] Conselhos aos jovens que pensam em casar






Padre Daniel Pinheiro, IBP




"Acabamos de ouvir no Evangelho de hoje o milagre feito por Nosso Senhor Jesus Cristo a pedido de sua Mãe nas bodas de Caná. Nosso Senhor, com sua presença santificava, o casamento, Ele santificava a família. Mais tarde, Ele elevaria o casamento a sacramento. A união exclusiva de um homem e de uma mulher para toda a vida em vista da procriação e do auxílio mútuo é algo santo. Sem o matrimônio, sem a família assim constituída, a sociedade desmorona por completo. Mais de uma vez já falamos da importância da família, que é a base da sociedade. E não se pode insistir suficientemente sobre o assunto. Falamos da família e de sua importância capital para o Estado e para a Igreja. Está claro, falamos da família: pai, mãe e filhos. É preciso, para o bem da sociedade e da Igreja, que haja famílias profundamente católicas. Famílias com uma fé profunda, com uma grande generosidade para ter uma família numerosa, se assim Deus o permitir, com uma vida de oração familiar, com o cuidado da educação dos filhos. Os pais participam da obra da criação ao gerar os filhos e devem participar da obra da redenção, educando os filhos para Deus. E a redenção se faz com sofrimento. A educação dos filhos se faz a base de sofrimentos, de abnegação, de sacrifícios. Tudo isso junto com grandes alegrias, e a primeira dessas alegrias é a de poder formar Cristo em uma alma.

Todavia, a ordem normal das coisas é que um casamento santo, que uma família profundamente católica tenha se formado a partir de um bom namoro, de um namoro católico em todos os seus aspectos. Um bom casamento começa por um bom namoro. Um casamento que começa por um mal namoro, terminará mal ou terminará bem com muito sofrimento que poderia ter sido evitado com certa facilidade. Bastam ao casamento as cruzes que já lhe pertencem naturalmente. Não devem aqueles que vão casar acrescentar ainda outras cruzes ao matrimônio porque se deixaram levar, no tempo do namoro, pelos sentimentos e não pela razão iluminada pela fé. Os jovens devem ter todo o cuidado com o namoro para não prejudicarem a si mesmos, ao próximo e ao futuro matrimônio. Os já casados superem as cruzes do matrimônio com paciência, fé e caridade, e saibam instruir os filhos com relação a isso. É preciso conhecer o que ensina a sabedoria da Igreja a respeito desse tempo de preparação para o matrimônio. Um dos motivos pelos quais não temos famílias profundamente católicas é porque não temos bons namoros. Todavia, as famílias formadas a partir de um namoro inadequado, muitas vezes fruto da ignorância, não devem nem podem se desencorajar. Pela graça de Deus e com esforço, é plenamente possível remediar isso e formar uma família profundamente católicas.

A primeira coisa que o jovem deve fazer é tomar a decisão de seu estado de vida, considerando em que estado de vida pode, concretamente, servir melhor a Deus e salvar a sua alma: sacerdócio (para os homens), vida religiosa, matrimônio. Aqueles que decidirem pelo sacramento do matrimônio, via comum da vida cristã e de santificação, devem seguir a sabedoria da Igreja quanto à preparação para esse sacramento. O casamento se prepara pelo namoro. É dele e de algumas coisas conexas que iremos tratar aqui. Não poderemos abordar de forma completa todos os aspectos do namoro, mas daremos algumas indicações. Quando falamos aqui de namoro, falamos de todo o tempo e de todo e processo que antecedem o matrimônio, incluindo, portanto, namoro e noivado.

O namoro tem por objetivo o conhecimento mútuo entre o rapaz e a moça, para saber se é razoável que os dois se unam até a morte. Esse conhecimento mútuo no tempo do namoro não é do corpo, mas das qualidades e defeitos morais, do temperamento, da história do outro. O namoro deve durar tempo suficiente para que ocorra esse conhecimento mútuo, mas não pode se prolongar ao ponto de começar a criar familiaridades indevidas. O namoro deve durar, então, entre um e dois anos. Menos do que isso seria imprudente, pois seria casar com quem não se conhece. Seria apostar na loteria e, quase certamente, perder. Mais do que dois anos seria casar sem respeitar profundamente o outro, em virtude das familiaridades que surgem em namoros longos. Essa falta de respeito prejudica bastante o futuro matrimônio.

Assim, é lícito começar a namorar somente quando se prevê realmente ter condições de casar dentro de um ou dois anos. Não se trata de uma previsão meramente hipotética, como por exemplo: daqui a dois anos terei terminado a faculdade e terei talvez um emprego. Não, trata-se de uma previsão real. Daqui a dois anos terei, segundo tudo indica, possibilidade real de casar.

Para começar a namorar, é preciso ter maturidade. Maturidade para poder educar os filhos que serão gerados e para que prestem o devido auxílio mútuo. Maturidade, no homem, para ser um chefe de família e cuidar do bem espiritual da esposa e dos filhos. Maturidade, na mulher, para ser o coração do lar e sacrificar-se nas pequenas coisas. É preciso, então, que, antes de começar a namorar, o jovem e a jovem se perguntem: Assumo as minhas responsabilidades? Tenho as condições para ser pai? Sou um homem ou um meninão? Tenho um emprego para sustentar a minha futura família? Ou ainda não? Tenho condições para ser mãe? Rapaz e moça devem, ainda, se perguntar: Vou saber como educar meus filhos? Vendo aproximar-se a hora de começar um namoro, tenho procurado me instruir sobre o que é o matrimônio, seus direitos e deveres? Estou bem consciente da fidelidade e da indissolubilidade do matrimônio e que, uma vez casado, continuarei casado até a morte, aconteça o que acontecer? Tenho procurado me instruir em como educar bem os filhos? Li sobre as cruzes do matrimônio e como evitá-las ou resolvê-las? Tenho uma vida espiritual sólida? Vivo, em geral, seriamente, buscando o céu e praticando as virtudes? Além disso, qual é a minha condição material? Tenho o mínimo para começar uma família mais ou menos em acordo com minha condição social? Estou pronto para os sacrifícios que serão necessários na vida comum? Essas são algumas das perguntas que se devem fazer antes de começar a pensar em namorar… E não estamos falando de um ideal inatingível, mas do mínimo necessário. Se o jovem ou a jovem pensam que o amor sentimental irá superar todos os obstáculos, é o sinal mais claro de que não estão preparados para namorar.

O namoro entre um rapaz e uma moça deve começar quando se tem esperança fundada de que possa dar certo. Não se começa a namorar uma pessoa desconhecida, simplesmente porque nasceu um sentimento de uma hora para outra. O namoro deve começar porque já existe um certo conhecimento entre o rapaz e a moça e porque já existe uma certa estima e simpatia mútuas. O normal é que já se conheçam de um ambiente saudável e não de ambientes mundanos. Essa estima para se começar o namoro deve ser baseada nas virtudes que o outro tem e não em simples sentimentos e essa simpatia deve ser a alegria de estar na presença do outro, mas alegria que decorre da estima, das virtudes do outro. O sentimento pode estar presente, sim, e não é ruim, mas não pode ser o fundamento do relacionamento. Não basta, então, os dois serem católicos para começar a namorar. É preciso que haja compatibilidade dos temperamentos, e é preciso que haja já esse início de estima e de simpatia.

Está claro, assim, que não se deve começar nem continuar um namoro já começado, quando não se tem estima pelo outro ou quando se tem antipatia pelo outro. Nem se deve começar nem continuar um namoro já começado, quando o outro tem um defeito moral grave. Muito comum a pessoa começar o namoro esperando que o outro se corrija desse defeito. Ou casar esperando que, depois do casamento, a pessoa se corrija desse defeito grave. É uma grande ilusão e imprudência, causa de grandes sofrimentos. Não se deve tampouco continuar um namoro em que a confiança mútua não é profunda. Ainda menos se deve começar um namoro com pessoa de outra religião. A Igreja nunca favoreceu o matrimônio de uma parte católica com outra não católica. A Igreja apenas tolera esse casamento, pois ele representa um grande perigo para a fé do católico e para a educação católica dos futuros filhos. Além disso, como esperar que sejam felizes um homem e uma mulher que no principal da vida – a religião – têm concepções completamente distintas? Haverá paz nesse casamento? E as diversas questões morais no matrimônio? A parte não católica as aceitará? Por exemplo, evitar os contraceptivos, os procedimentos esterilizantes, aceitar todos os filhos que Deus enviar? É prudente unir-se profundamente com alguém que tem uma visão distinta no principal da vida? É claro que não…

No namoro que é lícito, quer dizer, em que já existe a maturidade e em que se prevê seriamente a possibilidade de casamento em dois anos no máximo, e em que vai se desenvolvendo a estima e simpatia mútuas bem como a confiança e o acordo quanto ao sentido católico da vida e do matrimônio, nesse namoro plenamente lícito, será preciso guardar também a castidade, para que ele seja perfeito. A castidade no namoro (e antes do casamento como um todo) se guarda porque Deus nos deu a faculdade reprodutiva para ser usada para a geração e educação dos filhos e essa educação se faz devidamente dentro do matrimônio, com pai e mãe unidos por um laço indissolúvel. A castidade se guarda no namoro também para que as paixões não prejudiquem o julgamento que se deve fazer do outro, sobre suas qualidades e defeitos, para saber se é possível viver o resto da vida com aquela pessoa. Os pecados contra a pureza levam os namorados a pensar que a paixão vai superar todos os obstáculos e todos os defeitos do outro. A paixão logo será superada, os problemas permanecerão. E o sofrimento será grande. A família não estará solidamente fundada e o respeito mútuo ficará bem prejudicado.

Para guardar a castidade, é preciso muita vigilância e oração. A vigilância consiste em que os namorados guardem entre eles, sempre e onde quer que estejam, uma certa reserva, uma certa modéstia, um verdadeiro pudor. Isso não somente no contato físico, mas também nos olhares, nas palavras, nos gestos. No contato físico, não passar de dar a mão e com moderação. Precisam estabelecer limites claros, com franqueza um para com o outro. Os namorados em nenhuma hipótese podem se isolar das outras pessoas. Estejam sempre em companhia de outras pessoas de boa consciência. Podem, claro, conversar sem ser ouvidos por outros, mas jamais sozinhos, isolados. Não andem, por exemplo, sozinhos no carro. Se o fizerem, a queda virá, mais cedo ou mais tarde. E cada vez mais grave. Estejam sempre com outra pessoa no carro. Jamais devem viajar juntos ou ficar sozinhos em um aposento. É um suicídio espiritual. Devem ser extremamente cuidadosos nas despedidas, sempre também na presença de outras pessoas com boa consciência. A despedida é um momento crítico muitas vezes. Estejam sempre em ambientes saudáveis para a alma, evitando, então, os divertimentos que provocam em demasia os sentidos: cinema, festas mundanas, etc. O local de encontro entre os namorados deveria ser o meio familiar, até mesmo porque é vendo como o outro se comporta com a família dele que se pode conhecê-lo melhor e como ele se comportará com a família que formará. É também em ambiente no meio de famílias católicas que os jovens deveriam conversar e ir se conhecendo melhor quando vai se aproximando a idade de começar um namoro legítimo. Aqui são alguns poucos exemplos do que é necessário para manter a castidade, mas que já dão um norte. E não se iludam os jovens achando que o amor que nutrem pelo outro é tão puro que jamais cairão em pecados contra a pureza. É o primeiro passo para cair. O amor puro vigia, evita as ocasiões de pecado para salvaguardar a honra do próximo e a própria.

O bom namoro não deve ser um namorico, muito pegajoso ou grudento, como se vê muito comumente entre jovens sem consciência nos anos escolares. Devem, então, evitar essas atitudes de namorico, mas devem mostrar, pelo comportamento, a seriedade do namoro, o que não impede uma justa delicadeza e atenção, que são devidas. Como dissemos, os namorados devem guardar entre eles, sempre e onde quer que estejam, uma certa reserva, uma certa modéstia, um verdadeiro pudor. Isso vale também para fotos. É muito comum, atualmente, as pessoas publicarem fotos de tudo o que ocorre em suas vidas, expondo-se, exibindo-se, muitas vezes por orgulho ou vanglória. E os namorados vão publicando fotos e mais fotos juntos e mesmo em situações inconvenientes: muito juntos, muito colados um no outro, etc. É preciso ter muito cuidado com esse excesso de fotos, que pode mostrar um apego muito sentimental e infantil. E não basta evitar as fotos em situações inconvenientes. É preciso evitar as situações inconvenientes. O mesmo vale para fotos em que a pessoa está sozinha. Muito comum a pessoa ir colocando fotos e começar a querer chamar a atenção, a querer ser elogiada, fazer poses e coisas do gênero. É preciso ter muita vigilância nessas questões, uma enorme moderação.

É preciso que os namorados moderem bem a frequência e duração dos encontros. Se as tentações vão crescendo, é preciso diminuir a frequência e a duração deles. Quanto mais próximo o casamento, maiores serão as tentações e menos frequentes, portanto, devem ser os encontros. As conversas por telefone ou outros meios devem ser bem breves. Aos namorados não cabe fazer tudo juntos sempre. Muitas vezes, devem fazer as coisas realmente separados.

Se os namorados percebem ao longo do namoro que um futuro casamento não é possível porque falta a estima mútua, a simpatia, a confiança ou o acordo sobre a visão católica do mundo e do matrimônio, ou porque as personalidades simplesmente não dão certo, é preciso terminar o namoro. E nada mais natural do que isso. O que não pode ocorrer é engatar um namoro atrás do outro, ainda mais quando é no mesmo ambiente, destruindo amizades. Quando a pessoa engata um namoro atrás do outro, isso demonstra a falta de seriedade e de critério para começar a namorar. Esses namoros em sequência prejudicam o respeito mútuo e prejudicarão o amor conjugal quando a pessoa vier a se casar. Quando se termina um namoro, deve-se dar um tempo razoável para a reflexão, para a oração e para evitar os mesmos erros no futuro. É preciso também acabar um namoro quando se percebe que o namoro vai durar muito mais tempo que o previsto. Nesse caso, podem terminar o namoro para reatá-lo, eventualmente, no tempo oportuno.

É preciso que os jovens se preparem para o casamento antes mesmo de começar a namorar. Como dissemos, aproximando-se a idade de começar um namoro legítimo, podendo casar em um ou dois anos, devem os jovens começar a se instruir sobre o matrimônio, sobre seus deveres e direitos, sobre a educação dos filhos. Devem também instruir-se sobre como deve ser um bom namoro. Além disso, é preciso que se preparem mantendo também relações adequadas com as pessoas do sexo oposto, mantendo sobretudo o devido respeito. Muito comum hoje ver os rapazes e moças que já não se respeitam mutuamente, fazendo brincadeiras desrespeitosas, provocando uns aos outros à ira, fazendo piadas indevidas uns com os outros, conversando sobre o que não devem. Quando digo brincadeiras, piadas ou conversas indevidas não me refiro simplesmente a coisas contra a pureza, mas a coisas que levam a perder o respeito pelo rapaz ou pela moça ou que demonstram falta de estima. Muito comum entre jovens provocar o outro fazendo brincadeiras sem graça para chamar a atenção. Fazer provocações assim como suposto sinal de afeto leva à falta de respeito e não é digno de alguém sério. E esse respeito fará muita falta em um namoro e, principalmente, em um casamento. Esse respeito é a base sólida para a estima, simpatia e confiança mútuas entre namorados e, sobretudo, entre casados. É muito difícil manter esse respeito quando os jovens de sexo oposto se encontram completamente sozinhos entre eles sem adultos de boa consciência por perto.

Antes de começar o namoro é preciso que rapazes e moças evitem também alguns erros. Um erro comum é a pessoa começar a se desesperar porque não encontra uma boa namorada ou um bom namorado. E com o desespero ela começa a se expor cada vez mais, querendo chamar para si a atenção. Esse desespero leva muitas vezes a pessoa a casar com qualquer um. Essa ansiedade para casar logo é mais comum nas moças, mas pode também acontecer com os rapazes. É preciso ter muito claro que mais vale ficar sozinho ou sozinha do que casar com qualquer um e ter um casamento extremamente infeliz e conturbado. Vale mais ficar só do que ter um casamento com cruzes que poderiam ter sido evitadas com certa facilidade. Não se precipitar, portanto. O tempo do namoro é o tempo de ser muito exigente, de escolher bem. Depois do casamento, será o tempo da paciência. É claro que não se deve esperar o homem perfeito nem a mulher perfeita (que não existem), mas é preciso ter o mínimo de condições para um bom casamento: maturidade de ambas as partes, estima baseada nas virtudes, simpatia, confiança mútua, acordo profundo quanto à visão de mundo católica. Os jovens, sobretudo as moças, não devem, então, se precipitar. Mas os jovens devem também evitar o erro oposto, sobretudo os rapazes devem evitar o erro oposto. O erro oposto ao da precipitação é o de não amadurecer. Muitos já atingiram a idade de começar a namorar fisicamente, mas não amadureceram psicologicamente, socialmente e espiritualmente. É preciso buscar o amadurecimento, assumir responsabilidades, se instruir, levar a salvação realmente a sério. A imaturidade, mais ou menos voluntária, é uma desordem mais própria dos rapazes e muitas vezes perdura mesmo no matrimônio.

Tivemos, caros católicos, que descer a alguns detalhes práticos porque já não basta apontar somente os princípios gerais. Em outros tempos, talvez bastasse dar os princípios e cada um tiraria as conclusões. Atualmente, em nossa sociedade moderna, lenta na reflexão e formada pela televisão e redes sociais, é preciso mostrar também as conclusões mais práticas. Vocês, jovens, têm a oportunidade de ouvir essas coisas que muitos aqui não ouviram e que desejariam, talvez, ter ouvido no momento oportuno. Vocês têm a graça de poder fazer as coisas bem feitas. Vocês têm a graça de poder fazer uma boa preparação para o matrimônio. Coloquem a mão na consciência. Não desconsiderem o que diz a sabedoria da Igreja e um pai. É para o bem de vocês. Não se deixem levar pela superficialidade ou pela pressão do que todos fazem em nossa sociedade e ao nosso redor. Façam o que é certo. Não se deixem levar pelo sentimento. Sejam conduzidos pela razão e pela fé. E sejam alegres e generosos, como é próprio dos jovens, mas com uma generosidade ordenada pela caridade e com uma alegria não pueril ou infantil, mas católica".

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.


sábado, 1 de junho de 2013

Para vocês, rapazes e moças.

pelo Rev. Pe. Xavier Beauvais

Vocês já foram adolescentes um dia e desde então começaram a ver o mundo com novos olhos.

Os novos horizontes da idade adulta
Sua imaginação voava para um novo horizonte: o da idade adulta. Vocês passaram a observar, de um modo diferente, homens e mulheres viverem. Talvez vocês tenham procurado imitá-los. A preocupação com o amor tinha até brotado em seu coração, mas vocês eram ainda muito jovens para ousar falar. As pessoas zombariam de vocês e vocês sabiam disso. Idéias confusas e imaginações loucas talvez lhes tenham passado pela cabeça. A educação familiar e a formação religiosa se esforçavam para estabilizar tudo isso, para dar um espaço, uma posição, um sentido, um objetivo a cada um desses chamados interiores. Mas ao mesmo tempo vocês eram solicitados por um clima social, um estilo de vida, talvez atraídos pela sedução dos meios de comunicação, os cartazes, os folhetos, as palavras, os sons que destilam um vazio sentimental, uma falsa concepção do amor humano, que infelizmente difundem uma concepção materialista e errada do amor humano.
Um empresário fez a seguinte observação:
“Oferecem-nos “fatias de vida” habilmente dispostas e de um poder sugestivo impressionante. As histórias limitam-se freqüentemente à evocação de efêmeras conquistas sentimentais, de desentendimentos conjugais, temperados com cenas escandalosas das mais diversas. Quanto mais a vaidade da mulher é exaltada, mais a fidelidade do marido é colocada à prova. Sendo a vida moral dos cônjuges sem verdadeira consistência, é fácil imaginar que em cada romance há pessoas que sucumbem. E os naufrágios são numerosos, tanto perto das margens quanto em alto mar. Poder-se-ia pensar que isso é normal. Ilusões amorosas, incompreensão dos esposos, fuga de um, desespero do outro, brigas, voltas, casos de histeria, … e tantas outras coisas!”

As quimeras modernas
Rádio, televisão, jornais, internet, revistas; sabemos o que tudo isso sugere.
Saiamos agora do meio familiar. Vocês estavam numa idade em que a imaginação freqüentemente ficava sem rédeas, sem grande consciência do que estava conforme a lei natural e o que não estava. Vocês não tinham nenhuma experiência, mas queriam – e isso era legítimo – saber e compreender o plano de Deus sobre o amor humano. E o que lhes revelavam as ruas, as bancas de jornal, os romances baratos, a propaganda no metrô e no cinema, os outdoors, as leituras, os filmes, as músicas, toda essa sarabanda que os escoltava um pouco por toda parte para incrustar-se melhor em suas imaginações? O que lhes diziam, e dizem hoje mais do que nunca, sem nunca formulá-lo, essas imagens, esses filmes, essas músicas, essas publicidades?
Ora, elas dizem que:
- o amor, em primeiro lugar, é uma ocasião de prazer sentimental.
- o amor, em segundo lugar, é uma ocasião de prazer físico.
O discurso que a sociedade contemporânea oferece a vocês, rapazes e moças, não é somente estúpido e chocante, é simplesmente odioso. A imagem do prazer é de fato evocada por todas as fotos de revista, todos os filmes, onde somente uma silhueta física ocupa a imaginação. Ora, essa silhueta, essa criatura fictícia não tem nem coração, nem caráter, nem pudor. Ela não tem pai nem mãe, nem meio social, nem tradição nacional; ela não tem esposo, nem filhos, ela nunca os terá. Ela não é mais uma mocinha, ela nunca será mãe. Tudo que constrói a dignidade, a nobreza da mulher cristã, foi destruído, arrancado, desenraizado dela, isto é, a virgindade e a fecundidade.
Eis o que o depravado materialismo contemporâneo exibe em milhões de exemplares: uma criatura sem alma.
Como vocês sabem, é um clima tão habitual, tão permanente, que há um grande risco de sucumbir a ele sem se notar, um risco de não mais sentir, ao menos confusamente, que tudo isso é abjeto. Uma aspiração secreta, profunda e pura, até agora protegida pela graça divina, tão viva na alma de vocês quando eram crianças e até mesmo adolescentes, é então lenta e progressivamente imbuída, manchada pela obsessão quotidiana dos olhares, das palavras, das músicas que o cinema, a internet, propagandas e revistas sugerem, fazendo de vocês cúmplices vergonhosos.
Eis aí o cenário no qual vocês crescem hoje em dia. Essa é a concepção diabólica da economia social onde o gosto pela fortuna justifica todos os meios, inclusive os que desonram o amor, rebaixam as almas e destroem os lares. Tudo isso faz com que vocês tenham de enfrentar dificuldades maiores e mais numerosas do que as gerações anteriores. Vocês são inconscientemente moldados por tudo isso. Entretanto, lembramos-lhes algumas verdades cristãs sobre o casamento. Foi no colégio, em casa, ou na Igreja que vocês aprenderam, mas, para muitos, infelizmente, as questões de moral só chegam como proibições, tabus, e freqüentemente só surgem aí afirmações sem sentido, formalistas, convencionais.
E então, sob o aguilhão desse clima social, só há mais um passo a dar antes de afirmar que a moral cristã não é mais adaptada a nosso tempo, que não é prática, que não leva em conta os fatos, que é preciso alinhar-se à moda. Instala-se então a revolta contra tudo o que não segue a correnteza da facilidade, que oferece tantas e diversas solicitações. E sabemos onde essa correnteza pode levar.

Perigosos deslizes
Um deles são certos namoros. Mesmo com uma intenção mais ou menos longínqua de casamento, quantos namoros deixam de seguir, na maioria das vezes, a reta intenção de conhecer para depois comparar, para melhor escolher. O que alguns procuram nessas amizades é uma intimidade sentimental, uma necessidade de afeto que se quer suprir. Ora, isso não merece o nome de amor. De uma parte e de outra, é o egoísmo da sensibilidade que se procura satisfazer, satisfação que degradar-se-á progressivamente.
Esses encontros que acontecem sobretudo no escuro de uma sala de cinema, na atmosfera estressante de uma noitada, ou que continuam até tarde da noite em uma boate, expressam – vocês não negarão – expressam muito mais um desejo lancinante de intimidade física do que uma reserva profunda, nobre, e verdadeira de um rapaz e de uma moça que procuram conhecer-se verdadeiramente para saber, antes de confessar seu amor, se essa afirmação provém de um instinto indiferente ou se nasceu de motivos profundos, sérios e íntimos de suas almas.
Talvez todas essas questões não pareçam tão importantes para vocês que ainda não são casados. Entretanto, às vezes elas surgem de maneira trágica nos meses depois do casamento. Assim que o fogo do desejo é diminuído, são na verdade duas almas que se encontram face a face, dois caráteres, duas atitudes perante a vida … e às vezes, que pena!, dois egoísmos se defrontam. E quando a obnubilação de uma atração exclusivamente sensível é dissipada – e a experiência mostra que essa nuvem se dissipa rapidamente – jovens esposos, jovens esposas, sem ousar dizê-lo, começam a fazer comparações: “Ah, se eu tivesse casado com fulano … ele era menos atraente mas tão mais sólido”; “Se tivesse escolhido beltrana! Ela era menos vaidosa, mais reservada, mas hoje me parece muito mais feminina!”
Não é escutando cegamente nossas paixões que nos preservamos das adversidades. Existe uma armadilha sutil, freqüente, da qual só se escapa com a ajuda do Espírito Santo. É a armadilha de crer que rapazes e moças estão apaixonados na medida em que são irracionais. Não teria a razão nenhum papel a desempenhar no campo dos sentimentos? Há contradição e impossibilidade de conciliar o ponto de vista do coração com o da inteligência? Mesmo sendo a juventude a idade das paixões, ela não pode, por causa disso, viver em constante revolta contra a sabedoria prudente da maturidade. A razão não é inimiga do amor humano. Acompanhar nosso amor de reflexões, de observações, de meditações deliberadas não é enfraquecê-lo ou traí-lo, pelo contrário, é enriquecê-lo. A questão não é somente insuflá-lo com uma inspiração cega e apaixonada; é submetê-lo a uma outra inspiração, razoável e voluntária. É permitir ao amor que, depois do casamento, permaneça intacto, fortifique-se; é alimentar uma chama viva, a mesma que ilumina e aquece o lar.

Pensar antes de agir
A ordem natural das coisas num tal assunto é primeiramente julgar antes de decidir; em segundo lugar, procurar conhecer antes de chegar ao amor. Ora, por uma singular reversão devida à tentação, os jovens têm a tendência de decidir antes de julgar, e de amar antes de conhecer. É bom, é necessário julgar um rapaz, julgar uma jovem antes de decidir desposá-lo(a). É bom e necessário, tanto quanto razoavelmente é possível, conhecer o caráter, as aptidões, os gostos, as qualidades morais daquele ou daquela a quem se pensa unir sua vida, antes de se deixar levar por sonhos e desejos.
É difícil, me dirão! Sim. É doloroso? Sim, isso exige, incontestavelmente, uma renúncia interior. Mais doloroso é enganar-se, unir sua vida a um desconhecido, uma desconhecida, simplesmente porque pensamos que seu sorriso, seu olhar, ou sua situação, sua fortuna ou sua classe social eram promessas suficientes de felicidade.
Assim, existem moças que desposam uma silhueta, um automóvel ou uma situação. Cinco ou dez anos mais tarde, no fundo de seu coração, quando sofrem o egoísmo do marido e todas suas terríveis conseqüências, será que elas pensam que os motivos que determinaram seu casamento já prognosticavam tal infelicidade? Elas não pensaram no perigo que as ameaçava. Pensavam que os homens eram sempre mais ou menos egoístas. Quanto às riquezas, ao físico agradável ou à inteligência, isso nem sempre todos têm…
Existem também rapazes que desposam um sobrenome, um carinho ou uma herança futura, ou até mesmo uma cultura excepcional. E descobrem tarde demais que em outros lares a vida é mais doce, a comida melhor, as crianças mais bem cuidadas, mais educadas, a casa mais limpa, e que todos esses detalhes são exclusivamente o reflexo de um amor mais profundo, de um devotamento mais terno.

Os encontros católicos
É pensando nesses casos que entendemos o papel das relações entre rapazes e moças no seio de uma paróquia, dentro de um movimento católico. A função desses encontros não é esboçar, num plano inconscientemente egoísta, um laço sentimental, para esperar mais confortavelmente a idade ou a hora do casamento. A função desses encontros que vocês têm em grupo, quando saem todos juntos é, antes de tudo, ensinar-lhes a julgar-se reciprocamente. Nessa ocasião, a procura inquieta de uma intimidade sentimental ou de abandonos mais equívocos manchará a alma daqueles que estão na idade em que se decide seu destino.
É preciso que vocês, mais do que nunca, deixem Jesus Cristo viver e agir em suas almas, que devem ser constantemente alimentadas pela oração e pelos sacramentos. É Ele, Jesus Cristo, quem lhes dará a força de permanecer inteiramente reservados para o dom total que supõe um amor total. É Ele quem lhes dará a luz para bem julgar, evitando que a paixão chegue a obnubilá-los.
Tenham esta fé, a fé de que Deus sabe melhor do que vocês o que convém à sua verdadeira felicidade. Isso fará com que vocês evitem substituir a providência dEle pela sua própria vontade, a confiança em vocês próprios à confiança nEle.
É através da graça, usando de uma verdadeira liberdade, que vocês se encontrarão, caso sejam chamados ao matrimônio: é a verdadeira liberdade que os fará evitar encontros cujo objetivo não é conhecer-se nem julgar-se mas somente medir fraquezas e viver aventuras de prazer. Essas aventuras são de tal maneira imprudentes que destroem antecipadamente a felicidade conjugal, porque  só servem para exacerbar o egoísmo de cada um dos futuros cônjuges. Como vocês serão amanhã, espontaneamente, ocasião de aperfeiçoamento mútuo, se hoje, inevitavelmente, são um para o outro, ocasião de queda?

Bibliografia:   « La joie d’aimer » (Marcel Clement)
« Le combat pour ces jeunes » (Yves Salem)


http://www.fsspx.com.br/exe2/para-voces-rapazes-e-mocas/