
O Noivado 29 de julho 2007
Todo
jovem, num determinado momento da vida, coloca-se a questão do caminho a
escolher para o futuro. Há perguntas que a natureza e o próprio Deus
impõem à alma e esta deve responder: Que rumo tomará minha vida amanhã?
De que maneira concreta vou servir a Deus? Qual será de fato o caminho
pelo qual vou me salvar?
Perguntas obrigatórias, às quais cada um
- homem ou mulher - deve responder sozinho, diante de Deus, em certo
momento da vida. Decisão muito pessoal em que está em jogo sua vida, sua
salvação.
Ninguém pode substituí-lo nessa tarefa, nem pais, nem
irmãos, nem amigos, nem psicólogos ou psiquiatras, nem sequer seu
confessor.
Claro que ele pode e deve pedir conselhos. Mas a
decisão é pessoal, perante Deus. Por isso é bom fazer um retiro, para
descobrir o estado de vida ao qual Deus nos chama.
Não se trata de escolher uma profissão: advogado, médico, comerciante, empresário, desportista ou costureira...
O
estado de vida é algo muito maior, mais delicado, porque implica uma
certa imobilidade, é algo permanente, dificilmente passível de mudança,
que implica um modo determinado de viver as coisas que são fundamentais
na vida. E de certo modo algo definitivo em termos pessoais, diante da
sociedade e perante Deus.
Por isso, a decisão precisa ser sincera, generosa, tomada com seriedade.
Os
caminhos que se apresentam antes dessa decisão são vários: formar uma
família, isto é, o matrimônio; entrar em um convento, abraçando a vida
religiosa; fazer-se sacerdote, ou seja, seguir a vocação sacerdotal se
for homem; enfim, permanecer como está, isto é, solteiro, que também
pode vir a ser uma verdadeira vocação.
Nestas palestras não se
trata de considerar nenhuma dessas hipóteses; vamos nos ocupar de outro
assunto, também muito importante por tudo o que acarreta: o noivado.
Certamente,
o noivado não é um estado de vida, porque não é algo permanente (apesar
de sempre terem existido e continuarem a existir os "noivos eternos").
Noivar não é escolher uma vocação (mesmo que pareça haver pessoas que o
considerem como uma vocação e nunca se decidam a passar do noivado às
responsabilidades do matrimônio).
O noivado supõe que a escolha
do estado de vida já tenha sido feita: ou seja, que já se tenha
escolhido o casamento depois de um exame sério e maduro, numa decisão
muitíssimo pessoal (mesmo tendo sido necessário pedir conselhos aos
pais, ao confessor...) diante de Deus, da família e da própria
sociedade, ainda que a decisão permaneça no íntimo do coração.
Antes
de penetrarmos no nosso tema, acrescentemos algumas considerações sobre
a escolha do estado de vida para que vejamos que se trata de algo
importante, que deve ser obrigatoriamente pensado com seriedade por
todos os jovens.
A vocação para um estado de vida (qualquer um
dos que mencionamos: matrimônio, vida religiosa, sacerdócio, inclusive o
celibato) é um chamado de Deus, é uma graça.
Se Deus chama, tem
suas razões e concederá as graças necessárias. Além disso, uma vez dada a
vocação, Deus jamais vai retirá-la, a menos que sejamos incapazes ou
indignos dela.
Para conhecer a vocação deve-se consultar a Deus,
ao confessor, a si próprio, considerar suas inclinações e capacidades. A
escolha do estado necessita de muita oração, e uma vez que se viu
claramente o que Deus quer, uma decisão irrevogável deve ser tomada.
Aqui
estamos em nosso assunto. Alguém pode dizer-me: "Padre, eu estou certa
de que Deus me chama ao matrimônio, mas não aparece o noivo...".
Cabe
aqui uma primeira advertência, um primeiro princípio por assim dizer,
sobre o noivado: dizendo que estou seguro de que Deus me chama ao
matrimônio porque meditei, consultei, rezei e considerei as diferentes
possibilidades, isso significa que já tenho idade suficiente e que
decidi meu estado de vida.
É absurdo e antinatural o namoro em
tenra idade. Isso só causa danos à alma, muitas vezes irreparáveis.
Quantos pais felicitam seus filhos ainda em idade escolar porque já
estão namorando, sem dar-se conta da responsabilidade que têm e dos
pecados que fomentam ao permitirem nessa idade namoros tão fáceis.
Retomaremos o assunto da idade mais à frente.
Façamos
aqui uma advertência: em geral, a mulher "espera" o noivo e não sai
para "buscá-lo" e há quem espera por muitos anos, como as "senhoritas"
de oitenta e poucos...
Algumas jovens têm verdadeira fobia de
permanecerem solteiras. O conselho é não desesperar, não cair em
inquietudes excessivas, nem angústias. Vivendo nesse medo contínuo de
não encontrar noivo, acabam afastando de si, sem querer, aquele que
poderia ser o esposo destinado por Deus para elas: por que? Porque
quando se encontram com um possível "candidato" manifestam tanta
excitação e dão tantas manifestações de "querer" casar-se, que os jovens
acabam julgando-as superficiais, fingidas, afetadas ou meio levianas.
Resumindo, a única coisa que conseguem é fazerem-se menos respeitadas,
menos capazes de despertar um verdadeiro amor.
Uma conduta mais
discreta, mais prudente, mais cristã favorecerá com mais êxito o
cumprimento de suas expectativas, de seus desejos.
Mas às vezes, a juventude vai passando e começam a aparecer os cabelos brancos da velhice e continua-se esperando...
Em todo caso, a "espera", que termina em matrimônio ou decepção, é um período crítico que algumas mulheres devem atravessar.
A
mulher, nesse caso, deve pensar, cristãmente, que não está nesta vida
para "casar-se" mas para ganhar o céu, para conseguir a felicidade
eterna.
Por que então se preocupar e talvez fazer loucuras em
relação ao que é somente uma maneira, um meio, uma vida entre tantas que
Deus oferece para chegarmos a Ele?
O que quero dizer é que Deus talvez queira prová-las neste estado de "espera" durante toda a vida...
O
Cardeal Goma, primado da Espanha durante a guerra civil espanhola,
dizia sobre o tema: "consulte, interrogue, reze a Deus, espere: o noivo
chegará a seu tempo. Se não chegar, não sofra: é que talvez a senhorita
sofreria mais se ele viesse. E Deus e seu anjo da guarda querem livrá-la
de uma vida amarga".
Se entendermos estas verdades, abraçaremos
com entusiasmo a vida escolhida por Deus, que pode até vir a ser o
sacrifício da "vocação matrimonial" e nos preocuparemos em cumprir a
"vontade divina do momento presente", até o dia em que, cedo ou tarde,
um novo chamado nos encaminhe para uma nova vida..., a verdadeira vida, a
vida eterna.
Vamos então entrar em nosso tema, o noivado: sua natureza, condições, duração, etc.
Vamos
nos casar. Deus nos chama para colaborar em sua obra criadora por meio
deste sacramento tão grande, por meio deste estado de vida que é o
matrimônio.
Vamos nos casar com o primeiro que se apresentar a
nós? O primeiro homem que nos diga coisas lindas será nosso marido,
nosso esposo por toda a vida? Meu futuro marido deve ser um bom moço,
endinheirado e capaz de satisfazer todos os meus gostos? Ou quem sabe
não seria melhor experimentar, namorar um tempo com um, depois com outro
e outro?
Essas perguntas, em geral muito mal respondidas,
indicam que pouco ou nada sabemos sobre o que é o noivado, que pouco ou
nada sabemos sobre o que diz a Igreja sobre isso: o noivado deve ser
sempre santo...
Em tempos passados, o assunto "noivado" era
considerado com mais severidade. Os costumes de nossos avós e tataravós
não são mais os de nossa época: a preparação para o matrimônio, a
própria escolha do futuro esposo(a), dependiam mais dos pais do que dos
próprios interessados, tornando desnecessário o encontro freqüente entre
os noivos...
Hoje em dia, esses costumes desapareceram, mas os princípios morais que devem ser respeitados, não.
Vejamos então o que é o noivado, com quem se pode noivar, como deve ser o noivado, quando noivar, quanto tempo...
Que é o noivado?
Certo autor, querendo explicar em que consistia o noivado, começou por dizer o que ele não era:
*
não é o recurso mais eficaz contra a monotonia, a chateação, porque
para isso existem remédios especiais mais baratos, com mais garantis e
mais agradáveis. E sobre esse ponto acrescentava: "se te aborreces, pelo
amor de Deus, não recorras ao amor artificial porque, como o cristal, o
aço e o alcantil artificiais, é tudo mentira e se acaba logo..."
*
tampouco é o prêmio que se dá aos jovens aprovados no vestibulares.
Esta aprovação dá o direito ao novo universitário de reclamar do
irmãozinho que chateia porque quer jogar com ele, - "que praga que você
é, não te metas com os grandes", ou para a avó que o olha abobada e
orgulhosa - "a Faculdade é uma chateação", porém não concede o direito
de ter uma noiva no sentido verdadeiro da palavra. Normalmente o que
acontece é que ele ou ela se "estupidificam" pensando o dia inteiro um
no outro, respondendo à mãe com monossílabos quando esta lhes pergunta
algo. Ah! Humm! Riem às gargalhadas com as palavras do príncipe
encantado que lhes chegam por meio daquele aparelhinho chamado telefone
que concentra sua atenção durante muito de seu tempo.
O noivado
também não é um castigo de Deus para os que não conseguem passar no
primeiro ano de faculdade. Deus castiga os vadios, mas nunca tão
duramente. Se não foi aprovado no primeiro ano, tenha piedade de si e
recorra ao estudo..., dizia o autor.
O noivado, concluía ele, é
algo como um contrato entre um rapaz e uma moça que pretendem fazer uma
sociedade, edificar/comprar/alugar uma casinha/apartamento, enchê-las de
filhos e complementar-se como as duas metades de uma laranja (em São
Paulo: como a panela e sua tampa; como a mão e a luva) por
"secula/seculorum".
A coisa é séria. Podemos dizer que o noivado é
um estado preliminar ao matrimônio, uma familiaridade e conversação
contínua entre um homem e uma mulher a fim de preparar-se para um futuro
casamento.
Etapas prévias
As coisas grandiosas não
acontecem num só dia. Precisam de tempo, de preparação, de etapas. A
vida conjugal é uma dessas coisas grandiosas; portanto, é preciso chegar
a ela passo a passo.
Esta preparação começa na adolescência. Não é ainda o noivado, mas a maneira com que se tratam jovens de um e outro sexo...
Este
contato é natural e necessário não somente para conhecer o outro sexo,
mas para conhecer-se a si mesmo, para estudar suas próprias reações e
atitudes com os demais.
Uma evolução normal de qualquer jovem necessita desse contato. A partir de que idade? Desde os dezessete anos aproximadamente.
Este contato, especialmente no início, deve ser em grupos, não em particular, a sós.
"Se
não queres fazer-te desgraçada - afirmava um sacerdote num livro
dedicado às adolescentes - até que atinjas a idade conveniente... segue
este conselho: "todas com todos e com ninguém". E acrescentava: "E não
te esqueças: que tua mãe sempre saiba de tudo e conta tudo a ela".
Além
disso, para que essas reuniões sejam efetivas, para que ajudem à
própria formação e evitem perigos, não devem ser motivadas pelo simples
encontro ou entretenimento mútuo. É melhor que tenham outro fim, como
cultural, beneficente, etc.
Por que? Porque em tais
circunstâncias, os jovens deixam transparecer facetas de sua
personalidade e surgem mais motivos para conhecer-se. Caso contrário,
pode se tratar somente de "causar boa impressão" e para isso "camuflar"
elementos importantes de sua maneira de ser...
Em grupo, é
inevitável que se dê a conhecer os aspectos de seu modo de ser. As
intervenções, responsabilidades, pequenas colaborações e demais
circunstâncias, permitem que se vá conhecendo a personalidade, o
caráter, capacidades de cada um, pois essas atividades fazem com que
esteja ali para algo além de "ser visto"...
Encontrando-se
Mais tarde, um jovem e uma jovem começam a encontrar-se. Encontrar-se não é o noivado, mas pode ser um prelúdio...
Aqueles
que começam a encontrar-se, só como amigos, devem estar convencidos de
que isso não lhes dá nenhum direito a nada e que, além disso, não se
trata de uma diversão ou de uma brincadeira, mas de algo mais sério.
Esta
etapa é lícita contanto que haja motivos honestos e dignos e não se
trate de pura "diversão", passatempo ou namoricos. Essa intenção
desvirtuada transformaria as saídas num "jogo falso", que além de graves
conseqüências morais, pode acarretar graves conseqüências psicológicas.
A
reta intenção permite que seja um período de muita formação, pois dá
ocasião para exercitar a sinceridade, a nobreza, a generosidade, a
delicadeza. Também é ocasião de prova de moralidade e força de
vontade...
Permite um conhecimento mútuo em vista de uma futura
relação mais duradoura, o noivado. Mas isso deve ser feito com
prudência: não é bom passar tão depressa a esse estado mais formal e
próximo ao casamento.
Também é importante saber que, se tais
encontros começaram com nobreza, sinceridade, lealdade e valor, também
devem terminar com a mesma nobreza, sinceridade, lealdade e prontidão,
separando-se caso vejam que esse relacionamento não deva continuar...
Inclusive é um dever "romper" antes que o coração se tenha entregado
demais ou possa causar em um dos dois, ou em ambos, feridas
consideráveis.
Está subentendido que a lealdade, a delicadeza,
obrigam a uma especial discrição e segredo recíproco acerca das
confidências mútuas que se possa haver...
Brincar de amor
As
brincadeiras de amor, os "namoricos" como se chamavam antigamente essas
relações superficiais, sem profundidade, sem intenção alguma de
casar-se, puramente sensuais e sentimentais, são sempre condenáveis. A
vida não pode queimar-se no fogo de um amor por passatempo.
É o
amor sem compromissos nem responsabilidades; é o tobogã para os pecados
graves contra a pureza; é abrir as portas para as ocasiões mais
abomináveis e afastadas do verdadeiro amor cristão que diz respeito a
compromissos definitivos, sacrifícios, renúncias, dom verdadeiro de si
mesmo.
Esse tipo de namoro sem compromissos é a caricatura do
amor de acarreta os piores males, destrói a verdadeira capacidade de
amar e deixa suas feridas psicológicas de frustração, desencanto e
amargura.
Muitas vezes também danos morais irreparáveis, ou
talvez, a "surpresa" de um filho, fruto de aventuras que nunca deveria
ter sido imaginadas.
E as mais prejudicadas são as mulheres, não os homens.
Os
homens, levados por suas paixões, gostam desses namoros. Mas na hora da
verdade, quando encontram uma moça enérgica que se recusa a estas
"brincadeiras", mesmo que no momento fiquem aborrecidos, passam a ter
particular respeito, admiração por ela e as apreciam muito mais.
A
mulher, por sua natureza, por sua sensibilidade, se crê amada, sonhou
ilusões e tudo termina em uma brincadeira que destroça seu coração. E se
isso acontece não só uma, mas várias vezes, além de tornar-se incapaz
de amores superiores, seu caráter se crispa, seu humor se modifica e ela
se torna triste e insegura.
Deve-se fugir então deste tipo de
relações, muito fáceis hoje em dia nos ambientes de estudo, de trabalho
nos escritórios, nas empresas, como secretárias, empregadas, etc., que
colocam a jovem em contato permanente com rapazes, na maioria das vezes,
pouco dados a cumprir com seus deveres de cristão e quase sempre mal
intencionados!
Um bom conselho: nada de conversações
sentimentais, nada de intimidades e confidências de nenhum tipo, nada de
carinhos com homens com quem mais tarde não poderá se casar. Não tenha
intimidades a não ser com aquele jovem com o qual pensa e pode casar-se.
Saíram juntos... e então...
O noivado
Não é feminino tomar a iniciativa nas declarações de amor...
Fazê-lo
descaradamente provoca no homem o complexo de ter sido "fisgado". A
arte da mulher é fazer-se escolher. Insinuar, oferecer-se
descaradamente, rebaixa o valor da mulher. O homem gosta de conquistar e
não de ser conquistado, agarrado como um passarinho. Está na natureza
das coisas...
Mas isso não quer dizer que a jovem deva ficar em casa esperando pelo príncipe encantado...
Deve-se
fugir dos dois extremos: do oferecimento explícito que mais parece o de
uma mulher mundana, e da permanência doentia em casa, como um fungo na
sombra... A naturalidade de uma vida cristã oferece múltiplas ocasiões
para conhecer e encontrar jovens com quem se casar.
Para
casar-se, é indispensável amar-se; para amar é preciso conhecer-se; para
conhecer-se é necessário conversar; para conversar há primeiro que se
encontrar.
O autor que citávamos acima, que falava de um contrato
bilateral entre o rapaz e a moça, dizia que a verdadeira moça se
distingue por duas características: a primeira, é que ri somente a
metade de quanto riem as outras e a segunda é que diz "não" às cinco
primeiras declarações de um rapaz.
Onde encontrar um noivo
Surge
então o assunto de onde encontrar, onde conseguir um noivo. Isto parece
algo que provoca riso, mas tem muita importância e é coisa séria.
Lembro-me
de que no colégio dos irmãos maristas, onde cursamos nossos estudos
primários e secundários, quando o último ano estava terminando, um velho
e experiente irmão nos deu um conselho para nos ajudar em nossa vida
futura: "não busquem noiva na rua..."
Esse é o lugar onde se abordam facilmente as mulheres que hoje estão nos braços de um e amanhã nos de outro.
A
jovem que aceira as insinuações de um desconhecido que lhe fala na rua,
por mais interessante ou sério que pareça, não vale nada, não tem
apreço por si mesma, nem por sua alma...
As reuniões familiares
onde estão presentes amigos dos irmãos, os encontros na paróquia, nos
priorados, nas casas de famílias católicas, hoje as tradicionalistas,
podem ser boa ocasião para conhecer-se mutuamente.
Cuidado com os "amigos" do trabalho, da universidade, que estão em busca de aventuras e não pensam e não são tradicionalistas!
Com quem "noivar"
Surge aqui um assunto da escolha pessoal do(a) noivo(a).
Não
nos deixemos seduzir pela habilidade do rapaz em cumprimentar, em
pronunciar palavras que nos agradem. Raciocinemos, busquemos as
condições que deve possuir aquele que será nosso futuro esposo, pai de
nossos filhos. Condições sem as quais não se pode aceitar um compromisso
matrimonial e portanto, um noivado.
O Papa Pio XII dizia com
razão "Um afeto mútuo, nascido da simples inclinação de um para o outro,
ou de um mero apreço pelos dons humanos que se descobre num e noutro,
tal afeto, por mais belo e profundo que se mostre, ... não é suficiente
nem pode garantir a união das almas. Somente a caridade sobrenatural,
vínculo de amizade entre Deus e o homem, pode fazer laços que resistam a
todas as sacudidas, a todas as vicissitudes, a todas as provas
inevitáveis de uma longa vida conjugal. Somente a graça divina pode
elevar-nos acima de todas as pequenas misérias quotidianas, de todos os
contrastes ou desigualdades de gostos, de idéias, que crescem como erva
daninha nas raízes da pobre natureza humana".
Devem ser exigidas outras condições que não sejam a beleza física, as qualidades humanas.
Estas
condições pessoais devem ser descobertas durante o noivado. Por isso é
lícito, e mesmo necessário que os noivos falem entre si, se encontrem
sozinhos para se conhecerem melhor. Mas a prudência e a conveniência
reprovam as longas conversas a sós e fora da casa paterna. Um sábio
conselho cristão diz aos noivos: "Fale com seu noivo onde não os ouças,
mas onde os vejam".
Nestas conversas, cada um deve ir formando
uma idéia mais completa do caráter, dos dons morais, psíquicos e mesmo
físicos do futuro consorte e deve também provar com a prática - por meio
das conversas, do tratamento recíproco - a possibilidade de adaptar-se a
seu modo de ser.
"Por acaso não é de suma importância para dois
noivos assegurarem-se de que seus modos de vida são tais que
possibilitam estar de acordo e chegar a uma harmonia?" (Pio XII,
discurso de 12/11/1941).
O Pe. José M. de Llanos, falando sobre o
noivado, ressalta que essas relações são cristãs quando "projetam, isto
é, quando atendem mais ao dia de amanhã do que ao de hoje. Os noivos
não só devem se divertir, mas devem projetar como se divertirão no
futuro; que não só conversem, mas pretendam conversar sempre; não apenas
se amem, mas queiram amar-se durante toda a vida. A esperança do amanhã
é sua preocupação e seu alimento e, nas ocasiões perigosas, "esfria" os
possíveis calores ameaçadores".
O matrimônio requer em ambos os
esposos um propósito de colaboração. O propósito que não se aprende nos
livros, mas é ensinado pelo coração, que ama a concordância das vontades
e o concerto no governo e no andamento do lar; propósito que é afeição
recíproca, atenção e solicitude mútua em relação ao lar comum; propósito
que observa para aprender, que aprende para fazer, que faz de tudo para
ajudar o outro (ou a outra). Isso existe uma mútua e lenta educação e
formação conjugal, necessária para que duas almas que se amam
reciprocamente cheguem à realização de uma verdadeira e íntima
colaboração.
Esta harmonia que se deve alcançar no matrimônio e
durante a vida conjugal, nos mostra, antes de mais nada, que, para
permanecerem de acordo, é imprescindível que durante o tempo do noivado,
os noivos se conheçam o melhor possível. É claro, pois as pessoas que
provêm de famílias que, mesmo sendo semelhantes, não são idênticas,
possuem maneiras diferentes de pensar, de atuar, e de tratar-se.
O
Papa Pio XII dizia: "[É necessário], durante o tempo do noivado,
investigar, discernir, de circunstância em circunstância, as virtudes e
defeitos, as capacidades e as deficiências, não para criticar e brigar
ou para dar preferência a seu modo de ser, (...) mas para dar-se conta
do que se pode esperar, do que um cônjuge talvez terá de compensar ou
suprir" (Discurso de 18/03/1942).
Em outra ocasião acrescenta:
"Como os fogos de artifício encantam a vista nas noites de verão, o amor
nascido de uma explosão pode facilmente extinguir-se com ela,
reduzindo-se a vã fumaça. Pelo contrário, o amor verdadeiro e durável,
como o fogo doméstico, afunda-se em minuciosas atenções e constantes
vigilâncias e se sustenta não somente com as grossas lenhas que se
consomem silenciosa e lentamente sob a cinza quente, mas também com os
raminhos miúdos que crepitam alegremente com seu estalido e suas
centelhas" (Discurso em 24/01/1940).
"Os noivos não podem se
deixar levar por entusiasmos passageiros, porque logo aparecem os
desenganos que já não têm mais remédio. A coincidência de crenças,
sentimentos e tradições valem mais do que o amor à primeira vista, a
repentina emoção do coração" continua Pio XII.
Conformidade de crenças e tradições! (entre o noivo e a noiva).
Quão importante é prestar atenção neste sábio conselho do Sumo Pontífice!
O
essencial, o primeiro a se levar em conta, é que nosso futuro esposo
seja católico e convicto, praticante. E católico tradicionalista. E se
for piedoso, melhor ainda.
Estas condições não são fáceis, com
certeza, mas nossa fé está em jogo e, quem sabe, nossa salvação eterna
também. Vocês são jovens, casadoiras, (prontas para se casar e
desejosas) e tradicionalistas. Creio não ser necessário discorrer sobre o
que isso significa, mas consideremos a hipótese de noivar com um rapaz
não tradicionalista.
Entra em jogo a prática da fé, a assistência
à missa tradicional, o batismo, a educação católica dos filhos, etc. Em
suma, está em jogo a própria salvação por fidelidade ao dever de
estado.
Ele pode dizer: "vou deixar-te em liberdade para praticar
tua religião, mas te advirto de antemão que eu não te seguirei na
prática".
Existem duas possibilidade: ou ele cumprirá ou ele não cumprirá sua promessa.
Suponhamos
que o marido seja fiel à palavra dada durante o noivado: ver-te-á rezar
o terço e ele não rezará; ver-te-á ir à missa e ele não irá ou irá à
missa nova; poderão falar de tudo, menos sobre o mais importante e
interessante para ambos... Quantos sofrimentos! E além disso, quantos
perigos!
Pouco a pouco pode acontecer que a senhora se vá
contagiando com seu espírito, com seu catolicismo liberal, sem dar-se
conta, insensível, paulatinamente. Talvez a fé de ambos resista, mas
perderá vigor, energia e fervor, até cair na indiferença. Não morrerá,
mas decairá como uma chama que não é alimentada ou que carece do ar
necessário para se manter e crescer... Hoje por um motivo, amanhã para
evitar uma discussão. Desse modo, logo os filhos insensivelmente se
colocam do lado paterno...
E caso aconteça o contrário? E se ele
não cumprir a promessa? Não é uma hipótese que devamos desconsiderar. Ao
contrário! É uma realidade mais freqüente e pior que a primeira!
E nesse estado, quem poderá nos assegurar de que não perderemos a fé?
No
começo deixar-te-á assistir à missa, comungar, mas um dia virá a
proibição... E então, poderão talvez, por um tempo, continuar assistindo
à missa às escondidas, mas esse caminho é muito difícil de percorrer,
de se permanecer nele: o medo, o incômodo, a impossibilidade, a falta de
ocasião irão sufocando a fé na alma, até que se abandona Deis para
obedecer aos caprichos de um homem.
E, tratando-se de um homem que não pratica, maiores são os perigos e dificuldades!
Quando
as senhoras descobrirem num rapaz esta condição essencial de jovem
católico tradicionalista e praticante, não deixem de procurar também as
demais qualidades necessárias para um bom esposo: suas qualidades
morais, sua seriedade e sobriedade, seu espírito de trabalho, suas
idéias, seu caráter e gostos, seu modo de ser, costumes, educação e até a
posição social, quem são os que constituem "sua família"...
Por
isso, com muita razão, o Catecismo Romano ensina que não se deve
reprovar aqueles que, para escolher o esposo(a), acrescentam às causas
primeiras - a procriação dos filhos - outras, que induzem os homens a
preferir uma mulher a outra (ou vice-versa: a mulher preferir um homem a
outro). Que se tenha em conta: "... as riquezas, a beleza, a nobreza de
linhagem ou a igualdade de costumes. Nada disso repugna à santidade do
matrimônio".
Durante esta etapa de conhecimento mútuo, devem
trocar idéias sobre diversos aspectos da vida, sobre os filhos, a
família, a moral conjugal e até posições políticas, sociais. Se no
noivado houver discórdia sobre isso, no matrimônio haverá desgostos
muito mais graves...
A falta de harmonia e os defeitos do caráter
devem ser compensados por um lado com um espírito de mortificação e
tolerância e por outro com o desejo sincero de corrigir-se: estou
disposta a isso; está ele disposto também?
Há graus nessa busca
da harmonia, é claro. Mas quanto maior for a harmonia, mais
probabilidade há de se constituir um casamento feliz.
O ideal é
que esta harmonia alcance detalhes como gostos, afeições, diversões,
hábitos de vida, educação, limpeza, ordem, costumes, linguagem, etc.
Uma
advertência importante: devido a uma tendência psicológica, muito
natural e ingênua, pelo desejo de obter o objeto amado, antes do
matrimônio, acontece que todos os seres, tanto eles como elas, em maior
ou menor grau, arredondam suas arestas, se dobram à exigências do outro,
dissimulam seus defeitos. Mas uma vez alcançado o ser amado, os
caracteres se apresentam tal como são na realidade. Deve-se levar isto
sempre em conta para não cair em engano.
Ajudados pela graça,
pela oração e conselho do confessor, os noivos devem buscar pois,
durante esse tempo de preparação que é o noivado, um no outro, as
virtudes que serão as bases da vida do lar.
Algumas perguntas podem ser úteis nesta tarefa:
A
senhora tem certeza de que o casamento com este jovem não será
obstáculo para que viva na graça de Deus e cumpra todos seus deveres
para com Ele, que é a suprema aspiração que a senhora deve ter?
A
senhora e ele têm os mesmos princípios morais nos assuntos fundamentais
da vida matrimonial, familiar, pessoal; os mesmos desejos e afetos?
Têm
centros de interesse comum, ou os gostos de cada um são absurdamente
opostos e se chateiam mutuamente com as coisas que interessam ao outro?
Acha que nunca e por ninguém mais - a não ser Deus - a senhora poderá sentir um amor maior do que o que sente agora por ele?
Acha
que a firmeza do amor que sente agora não diminuirá com o tempo à
medida que vá conhecendo a pessoa amada? Pelo contrário, aumentará cada
vez mais à medida que o conhece melhor?
Está disposta a
entregar-se totalmente, tem o desejo de fazer feliz a pessoa que ama ou
vai casar-se buscando a sua própria felicidade?
A senhora possui
paciência suficiente para compensar as suscetibilidades, para superar os
possíveis defeitos de seu futuro cônjuge?
Depois de casada, terá
necessidade da presença de outros amigos para não se chatear ou a
presença de seu marido bastará para contentá-la?
Acha que se o
matrimônio passar por uma tribulação (pobreza, enfermidade) ele lhe
ajudará a aceitar a situação com resignação cristã?
Encontra nele virtudes e qualidades que lhe despertam admiração e lhe dão ânimo para ser melhor?
Domina seu gênio? Tem espírito de trabalho?
Simpatiza com sua família?
Tem modos ou expressões que lhe atacam os nervos?
Está disposta a tolerar suas faltas? E ele, as reconhece e demonstra boa vontade em corrigir-se?
Aceita seus erros ou se empenha sempre em ter a última palavra?
É compreensivo com o próximo ou sempre faz questão de brilhar?
Nada
é perfeito neste mundo. Porém todos devem ter grandes desejos de se
superar, de chegar à santidade. E o esforço mútuo, o apoio de um para o
outro nesta tarefa, cheia de compreensão e caridade, é uma das maiores
alegrias da vida conjugal.
O noivado deve santificar mutuamente os noivos, como tudo na vida cristã, porque se não, não serve...
Por isso, nem tudo é permitido no noivado.
O que é permitido, o que é proibido
Entramos aqui num tema delicado, no qual deve-se prestar muita atenção.
Em
um mundo que permite tudo, que tudo consente, a jovem católica deve ter
bem claro o que se pode e o que não se pode fazer com o noivo durante o
noivado.
Um princípio geral que esclareceremos aos poucos, nos
diz que: "são lícitos aqueles atos que segundo os costumes católicos de
uma região são comuns entre os noivos".
Um primeiro aviso é que
os noivos têm, durante seu noivado, os mesmos direitos que todos os
solteiros, particularmente no que toca à pureza.
Podem ver-se com freqüência e falar-se sozinhos, mas sempre onde sejam vistos.
Podem
dar-se mostras de amizade fraterna: os noivos não são duas pessoas
desconhecidas e certas demonstrações de afeto e amor são permitidas.
Quais? "Aquelas que uma irmã tem com um irmão, e mesmo assim, com maior reserva", nos diz um autor que fala sobre o assunto.
Que haja prudência, dignidade, respeito e nobreza no trato mútuo.
Ser
como um anjo da guarda para o noivo; tenham certeza de que se o noivo é
católico e ama verdadeiramente a sua noiva, agradecer-lhe-á que se
mantenha a certa distância.
Rezar e comungar juntos é uma grande
ajuda para conservarem-se puros, para vencer as tentações. Os noivos
verdadeiramente católicos devem dar sempre contas a Deus de todos os
atos de sua vida, particularmente naqueles momentos, naquelas horas
solenes que pretendem construir, fundar as bases de um futuro lar.
Conhecer-se,
tratar-se intimamente com plena confiança não significa que são
permitidas certas "confianças e intimidades". A graça de Deus não pode
estar ausente da relação entre os noivos; o noivado só pode existir na
graça de Deus. Isso é entesourar bênçãos do céu para o matrimônio.
Os noivos podem dar-se demonstrações de carinho, de afeto, mas sempre castas.
A
noiva deve estar convencida de que quanto mais pura e respeitosa seja
sua conduta durante o noivado, maiores serão as garantias de ter um
casamento indissolúvel, tranqüilo e amoroso.
Por isso é preciso
ter muito cuidado nas demonstrações de afeto e de amor que nem de longe
podem ser comparadas ao que acontece hoje, ao que nos mostram os
romances, as novelas, filmes e inclusive a vida quotidiana que vemos na
rua e até mesmo entre nossos conhecidos...
Os noivos ainda não
são esposos. Muitas coisas que entre os esposos são permitidas, são
pecados graves entre os noivos ou pelo menos ocasiões voluntárias de
pecado, perigo de pecados graves, dos quais estão estritamente obrigados
a afastar-se.
É muito difícil que os noivos que não são
prudentes em suas manifestações de afeto permaneçam no limite das
intimidades lícitas: uma carícia leva a outra maior; um beijo leva a
outro mais prolongado, apaixonado...
Sobre este assunto dos
beijos: eles são indiferentes em si; portanto, tudo depende da intenção
ou influência que tenham no instinto sexual e o perigo em consentir em
excessos desse instinto. Por isso, quando o beijo é uma demonstração
lícita de afeto casto, ele é permitido como sinal de amor cristão,
segundo S. Afonso. Quando se busca o deleite sensível que o beijo
produz, o beijo torna-se um pecado - e grave, nos ensina o Magistério da
Igreja -, mesmo que se exclua o perigo de consentimento.
É por
isso mesmo que a moral católica ensina que os beijos na boca são pecado
mortal por ser lugar sumamente excitante, e que os beijos demorados,
repetidos com freqüência, dados entre pessoas de sexos distintos,
ordinariamente são pecados graves porque levam consigo grande
perturbação. Além disso, procedem de um afeto libidinoso (entre
solteiros raramente têm outro motivo). Assim sendo, estão proibidos aos
noivos.
O próprio Santo Afonso Maria de Ligório acrescenta que
"aos noivos não são permitidos contatos impudicos", isto é, quando se
busca o deleite sensual ou é feito nas partes menos honestas ou
desonestas (torpes) do corpo do outro.
Assim, fica claro que os
noivos que queiram conduzir a bom porto seu noivado, só lhes é
permitido, com reta intenção, as demonstrações de afeto nas partes
honestas no corpo (naquelas que segundo um são costume, sem ofensa do
pudor, se expõem à vista de todos (o rosto, as mãos, etc.) E mesmo
assim, se houver perigo de consentimento em deleites impuros, devem
abster-se até destes.
"Muitas vezes é preferível renunciar às lícitas que arriscar-se a cair nas que são pecado".
Para que as carícias sejam inofensivas, convém que sejam breves, delicadas, e "dos ombros para cima".
Insistimos:
se as carícias ou demonstrações de afeto levarem voluntariamente a um
deleite carnal ou levarem voluntariamente e sem necessidade a um perigo
próximo de provocar tal deleite, serão sempre pecado grave.
E haverá sempre a obrigação de resistir aos deleites que venham involuntariamente.
Na
mulher, normalmente, as demonstrações de ternura só provocam doces
afetos; porém, nos homens, muitas vezes se desencadeiam grandes paixões.
Certas
familiaridades, certas concessões que para a jovem ou entre mulheres
são inofensivas, freqüentemente podem perturbar mais ou menos gravemente
os homens.
Por isso, em tudo o que é demonstração de afeto entre
noivos, é principalmente a noiva quem deve orientar, pôr limites, ser
recatada, recusando toda familiaridade que exceda o que permitiria a um
irmão, ... a um amigo.
Existe essa diferença e as jovens católicas devem sabê-lo.
Devem
saber também que certas atitudes (como postura, modas, vestidos), tatos
(beijos e abraços), certas familiaridades que nelas produzem somente
doces afetos e sensações lícitas, normalmente são para os homens fonte
de violentos desejos, emoções, sensações, tentações e às vezes provocam
graves quedas.
É claro que há modos, posturas, linguagem,
atitudes e vestidos femininos que são permanentemente provocação à
impureza dos homens.
"Por isso, a castidade da mulher exige um cuidado permanente com a castidade dos demais".
Quando
uma jovem encontrar o homem que Deus lhe destinou, vão ambos à Igreja,
ao Priorado e, de joelhos, ofereçam a Cristo sacramentado o desejo de
manter um noivado casto, com relações puras, santas, pedindo as graças
necessárias para preparar um lar feliz e católico. Que os dois cheguem
ao altar sem ter que se envergonhar de nada durante este tempo de
preparação para o matrimônio, comprometendo-se a ajudar-se mutuamente, a
frear as tentações do outro com severidade e decisão, com firmeza...
Para
que Deus lhes ajude há que ser prudente: quando se virem, que não seja
em lugares solitários, mesmo na própria casa quando não houver ninguém;
não freqüentem lugares inconvenientes, nunca saiam sozinhos de férias,
para caminhadas, acampamentos, longos trajetos de carro. Os passeios
solitários não devem ser permitidos. Nada de lugares solitários e
escuros. Tudo isso é colocar-se voluntariamente em ocasião de pecado.
Sempre
ver-se em lugares visíveis. A obscuridade e a solidão são sempre
perigosas. As longas despedidas na escuridão dos saguões são ocasiões de
graves quedas.
Umas das melhores defesas morais para o
comportamento dos noivos são os olhos alheios que os estejam vigiando. O
comportamento dos noivos deve ser tal que a qualquer momento possam ser
vistos por seus pais.
Os projetos dos quais falávamos devem ser
preparados e estudados em "sociedade", isto é, à luz do sol... uma mão
da noiva na sua família, uma mão do noivo na dele, ambos juntos com seus
bons amigos...
O Pe. de Llanos dizia sobre o assunto:" como a
fruta da árvore, o matrimônio é um banquete em perspectiva. Se
arrancamos a fruta antes que ela caia, estará verde; dessa cor estará o
noivado que rompe as amarras sociais e busca a solidão antes do tempo.
As amarras sociais que hoje parecem correntes, farão o amor amadurecer,
assim como o cabo da fruta preso à árvore amadurece a sobremesa de
amanhã. Espera. O noivado não é um estado perene, não é banquete que já
pode ser saboreado". Quem come uma fruta que ainda não amadureceu, que
está verde, sobre em seguida as conseqüências...
Mas muitas vezes o argumento que o demônio inspira é o de pedir uma "prova de amor".
Ele
dirá que nos ama, que somos seu único e total amor, mas acrescenta:
"você não me quer; parece que não lhe interesso, é tão fria comigo".
Ataca os sentimentos para vencer a noiva; exige uma prova de verdadeiro
amor..., de fazer o que só está permitido no casamento e para o qual
Deus o instituiu. E muitas caem porque temem um dua serem abandonadas
pelo noivo. Se ele lhes pedir essa "prova" tenham certeza absoluta que o
sujeito não presta e que devem romper o noivado imediatamente.
Amor
é sacrifício, renúncia, exercício constante e perfeito da virtude que
por nada exige provas que ofendam a Deus e a vocês mesmas e que são
somente demonstrações de egoísmo, paixão desordenada e sem freio. Quem
não sabe colocar limites para si, dominar as paixões agora, não o fará
depois. E então, quem sabe o quê pedirá e exigirá de vocês quando
estiverem submissas pelo sagrado vínculo do sacramento?
Pois bem,
querem uma prova certa do amor do noivo? Não lhe permita nenhuma
demonstração que não permitiriam diante de seus pais, de seu irmão.
Se
o amor do noivo dor verdadeiro, esta condição, esta prova, leva-lo-á a
respeitar mais a noiva, a amá-la mais, a continuar o noivado. Se seu
amor não é verdadeiro, é melhor perdê-lo: suas intenções não são retas
nem honestas.
"Jovem católica - dizia um sacerdote - considere vagarosamente essas idéias:
Se lhe atrai sua beleza física: só isso não é amor, é admiração...
Se sente palpitar seu coração em sua presença: só isso não é amor, é sensibilidade.
Se deseja uma carícia, um beijo, um abraço...: só isso não é amor, é sensualidade.
Se
o que deseja é o bem de seu noivo, mesmo às custas de sacrifícios,
mortificações, quando ocasiões difíceis se apresentarem: encontrou o
verdadeiro amor.
Deve-se conhecer o noivo, a noiva, mas isso é
muito mais do que freqüentar sua casa, é muito mais difícil que
querê-la... Precisa-se de um exame de consciência pessoas; examinar-se
diante dele, ele diante dela, diante de Deus, de seus mandamentos. O
esposo deve ser algo de Deus para a esposa; a esposa, algo de Deus para o
esposo...
Quando esse pensamento conduz à paz, a uma harmonia, a
um complemento mútuo de compreensão, de satisfação intelectual, é sinal
de que se está indo por bom caminho... Mas cuidado, há obstáculos a
serem superados, inimigos a serem vencidos: a paixão que nubla, a
tendência da carne que nos torna como animais, o egoísmo sutil que
subjetiviza, a importância intelectual que nos impede de raciocinar e
que faz plebeus a mais de 80% dos cérebros juvenis...
Uma jovem
que havia guardado imaculada sua pureza escrevia o seguinte: "Exigirei
que meu futuro marido se tenha guardado intacto como eu para nosso lar".
Também
vocês têm o direito, a obrigação de reclamar a pureza de seu futuro
marido, apesar do que o mundo de hoje nos mostra. Sejam firmes nesse
assunto e terão fundamentos santos e inabaláveis para o lar ao qual Deus
as chama.
Tudo isso nos mostra com que seriedade devemos
enfrentar um noivado. Não é coisa para crianças; requer juízo,
maturidade, inúmeras condições num e noutro, impossível de se existirem
em crianças ou adolescentes.
Idade conveniente
Aparece aqui então a questão da idade. Em que idade pode-se começar um noivado entre jovens católicos?
O
noivado só é lícito quando se tem idade suficiente para contrair
casamento, porque seu objetivo é preparar-se para tal. Mas não se trata
de considerar a "idade canônica", a idade estabelecida pela Igreja para a
"validade" do casamento.
Geralmente, não há idade determinada
para que haja um noivado formal. É preciso uma maturidade emocional, uma
preparação moral suficiente para sustentar com capacidade suficiente as
obrigações e os deveres de pai e/ou mãe.
Conhecemos pela
história casamentos de adolescentes, quase crianças, formalizados mais
pelos pais do que pelos próprios esposos. Porém, mesmo assim, alguns
foram felizes e santos.
Hoje em dia não é assim. Dadas as
circunstâncias do mundo em que vivemos, é totalmente desaconselhável o
casamento e o noivado entre adolescentes.
Se tivéssemos que
estabelecer uma idade mínima, assinalar com quantos anos convém uma
jovem começar a namorar, diríamos que aos vinte anos aproximadamente.
Não antes. E para o homem, um pouco mais...
Um autor nos diz que é
a idade quando "a vida já deu às pessoas uma sensatez, uma prudência e
uma visão da realidade que não se pode ter em tenra idade". Querer "ter
um noivo" antes dessa idade é como comer fruta verde; e todos sabem o
que acontece quando se come fruta verde... produz dores e mal estar.
Poucas vezes os amores prematuros, que não são amor e sim namoricos, tornam-se amor maduro e casto.
O que acontece é que esse primeiro fogo se apaga e acaba deixando o coração ferido, com amarguras.
É o amargor da desilusão, da acidez da fruta verde.
Ao
"amor em tenra idade" seguem-se uma carreira de namoricos que só deixa
velhas solteironas, amargas, tristes e desencantadas da vida... ou, ...
ou acontecem os matrimônios "às pressas" ... e em seguida a separação, o
divórcio com todas as suas seqüelas.
E já que falamos de idade, é bom falar de algo suplementar, porém importante: as diferenças de idade.
O melhor é que ele seja um pouco mais velho do que ela, alguns anos, não muitos, no máximo de quatro a seis anos.
Se
for muito mais velho, não será fácil a acomodação mútua; talvez já
tenha algumas "manias de solteirão" difíceis de serem vencidas por ele e
suportadas por ela. Além disso, há o risco de tornar-se viúva, jovem
ainda, prejudicando a educação dos filhos.
Se é ela quem "leva
grande vantagem na idade", as dificuldades de acomodação à vida em comum
são maiores... Mais que esposa, ela será sogra; mais que submissa, será
a "chefa" de seu marido...
É necessário considerar neste assunto
os costumes do lugar e lembrar que também já houve exceções e sempre
haverá. Mas quatro a seis anos é a diferença de idades que a ordem da
natureza parece exigir no amor humano, no matrimônio cristão.
Tempo do noivado
Por último, convém falar algo sobre o tempo do noivado, ou melhor, quanto tempo deve durar normalmente o noivado?
Já
se pode imaginar dois extremos antinaturais. Existem aquelas que "para
não perdê-lo", falam logo "sim" ao noivo e se casam três meses depois de
tê-lo conhecido. Nem sequer se lembram da cor de seu cabelo, não têm
consciência do que ele pensa e quando muito, sabem apenas o dia de seu
aniversário...
Os sofrimentos que os esperam são indizíveis, os
tropeços na vida conjugal, sem falar do risco que correm de que tudo
termine em fracasso.
Nosso conhecido Pe. Castellani falava sobre
isso: "no noivado os futuros esposos aprendem a conhecer-se. Isso faz
com que não convém que seja curto, muito mais em nossos dias, onde há
uma grande confusão social que faz com que às vezes os que se casam
sejam desconhecidos entre si. Antes, as famílias se conheciam desde
muito tempo e a sociedade não estava mesclada e agitada como está agora.
É claro que o noivado não é o casamento. Cada um dos noivos arruma para
si uma máscara de ótima aparência; mas se o noivado for mais longo,
essa máscara cairá".
O outro extremo são os "eternos noivos", que
perpetuam o noivado por tantos anos que já se perde a conta, não sabem
mais quando se conheceram, nem como, talvez sejam noivos desde a
infância...
Nada mais os atrai; não há nada de novo. Estão
juntos, com um incentivo, a ilusão de um futuro lar. Ele conhece tudo
sobre ela, ela conhece tudo sobre ele. Mais do que noivos, parecem dois
seres que vivem para ter uma "companhia, alguém com quem sair, o noivo, a
noiva "seguros" de que não ficarão pasmados em casa enquanto há uma
festa que lhes interessa.
O normal, o natural, é um noivado de um ano ou dois, um máximo de dois anos e meio ou pouco mais.
Com
menos tempo é muito difícil conhecer o futuro noivo suficientemente e é
possível que depois de casados apareçam defeitos não suspeitados e que
põem em perigo a vida conjugal.
Com mais tempo, facilmente se
perde o respeito, o interesse em formar um lar, uma família católica e
se cai no que já dissemos: um relacionamento cuja razão de ser é ter uma
boa companhia sempre à disposição para o que se necessite.
É
claro que existem exceções e que também deve-se ter em conta os costumes
locais e outras circunstâncias que venham a ser razões suficientes para
encurtar ou alongar esse tempo: conhecimento prévio, qualidades
excepcionais, situações econômicas, de trabalho, estudo, etc.
Como
palavras finais sobre esse tempo, repetimos o Pe. Llanos: "A escola do
noivado tem por único sentido ser um meio de cultivo de um amor que
brotou num primeiro dia feliz quando os dois se conheceram. O noivado é
como uma estufa, um sulco na terra onde cresce em ritmo lento e
misterioso a semente que Deus plantou quando quis e porque quis - eis
aqui a interpretação mais simpática do que seja o noivado. Nele há algo
que não está diretamente na vontade das duas partes, há um processo
substancial em si que cresce arraigado nos dois corações. Ele e ela
podem e devem fomentar o desenvolvimento lento e misterioso da "planta"
interior que os aproxima e os une, mas nunca serão os donos absolutos
deste crescimento. Impõe-se, antes de tudo, o respeito ao processo e a
suas leis, que no fundo é o respeito à mão que dirige esse processo.
Falando com mais profundidade: esse respeito é um ato de culto, um
presente, um ato de submissão a Deus, pai e criador, que semeou o amor
entre os dois jovens e o conduz. E porque esse processo tem sua lei
cronológica e de crescimento, acelerá-lo é um disparate e um delito.
Acelerá-lo é querer tirar dele suas conseqüências mais agradáveis, ou as
mais definitivas, buscando uma floração de plenitudes antes de chegar a
primavera. Eis um modelo para o modo de aprender a amar e ser amado no
noivado: façam como o lavrador que sabe suas e esperar, que coordena o
esforço de seu músculo com o olhar para os céus, observando se chegou o
momento da chuva. Cultivar não é precipitar; cultivar tem tanto de
serenidade quanto de afã, tanto de ritmo quanto de vigilância, tanto de
esperança quanto de caridade. Cultivar, nesse caso, não é apenas
conhecer e ser conhecido, é, além disso, sacrificar e saber ser
sacrificado. Todas as relações têm de conceder ao sacrifício mútuo o
dobro de força de alma que se concede à santificação mútua. O sacrifício
mais fecundo do noivado é o de adaptar-se um ao outro uma vez que se
percebeu os defeitos mútuos e combater em si defeitos que desagradam ao
futuro cônjuge. Encarar os defeitos e superá-los com o afeto, expô-las
com compreensão, ajudar o outro a combatê-los com a mais rigorosa
ascética. Não há peça de solda que una mais os dois corações e as duas
vidas do que esse "encaixe" cristão dos defeitos mútuos. Não há tarefa
mais digna e mais prática do processo do amor cristão do que essa
cumplicidade no combate dos defeitos mútuos. Em vez de desunir, torna-se
o mais forte braço de união".
Parece-nos importante também uma
advertência final: o dever mútuo de fidelidade durante o noivado, ou
seja, ser noivo de só um jovem, exclusivamente. Um com uma.
A que
me refiro eu? A que a jovem que está noiva deve ser fiel a seu noivo e
não entrar em jogos perigosos com outros jovens com quem poderá, sim,
conservar a amizade, mas nunca entrar em intimidades, confidências,
conversações ou insinuações que despertem neles sentimentos perigosos,
alimentem expectativas ou provoquem situações que não correspondem a sua
atual condição de noiva católica que se prepara para o casamento.
Para
finalizar, recordemos um provérbio russo: "antes de partir para a
guerra, reze uma vez; antes de embarcar, reze duas vezes; reze três
vezes antes de se casar".
É necessário rezar sempre, mas
particularmente, de modo especial, antes do matrimônio. Durante o
noivado, individualmente, juntos, ambos os noivos, um pelo outro, por si
próprio, pelo noivado, pelo lar que vão formar.
Transcrevemos
uma oração que os noivos devem aprender a rezar juntos, para que seu
noivado seja realmente santo, os santifique e lhes permita alcançar um
santo matrimônio:
"Senhor Todo Poderoso e cheio de bondade, Vós
permitistes nosso encontro. Vós sois a fonte de toda luz e de todo amor.
Dignai-vos por Vosso Espírito Santo preparar-nos para o sacramento do
matrimônio. Ensinai-nos a conhecermo-nos verdadeiramente; fazei que
nosso amor seja cada dia mais profundo, mais leal e mais puro.
Que
sob vosso olhar nos respeitemos até o momento em que, pelo matrimônio,
nos pertençamos mutuamente e desde então até o fim de nossas vidas. Por
Jesus Cristo Nosso Senhor, Amém".
Outra oração que poderiam rezar juntos aqueles que queiram ter um noivado católico é a seguinte:
"Senhor
Jesus, Vós que dissestes que onde dois ou três se reunirem em vosso
nome, ali estaríeis Vós, e o que pedissem ao Pai, Ele o concederia,
acercai-vos de nós e escutai nossa prece. Em vosso nome unimos nossos
corações e nossos desejos; em vosso nome, porque consideramos nosso amor
como dádiva vossa. Cremos que vós nos unistes, cremos que vós presidis
nossa afeição, cremos que vós nos protegereis da ilusão. Vinda, Senhor,
elevai ao Pai nossa oração. Vós conheceis nosso desejo mais íntimo:
queremos que essa unidade que estreitastes entre nós seja duradoura e
santa, que imite de algum modo aquela Unidade que Vós, com o Pai e o
Espírito Santo, possuís e possuireis eternamente. E nesta unidade, Vós o
sabeis, o sonho de um novo lar, de um Nazaré com a pureza e humildade
de Maria, o trabalho e o esforço de José e vossa presença e imagem com
nossos filhos, nascidos para Vós, e quantos Vós quiserdes nos enviar.
Senhor Jesus, nossa gratidão só vos pode oferecer esses pobres corações
de terra, cheios da ilusão mais pura, a fim de que Vós os bendigais com
aquela bênção milagrosa de Caná. Convertei, Senhor, nosso amor de hoje,
limpo e simples, em fecundo e doce vínculo matrimonial. A Mãe do Belo
Amor intercede por nós. Ela se compadece de nós e nos ama. Vós fareis o
milagre. Para que creiamos mais em Vós, na glória de vosso Pai e nosso,
que convosco e o Espírito Santo vive e reina por todos os séculos dos
séculos. Amém".
Como síntese da doutrina católica sobre o
noivado, podemos dizer que não se pode viver cristãmente no matrimônio
se não se viver cristãmente antes de chegar ao matrimônio.
A
receita é a de toda vida cristã: a vida de oração, a freqüência aos
sacramentos, a mortificação cristã, o desejo de cumprir sempre e em tudo
a vontade de Deus, a devoção à Santíssima Virgem, a São José, ao Menino
Jesus (a Sagrada Família, paradigma de toda a família católica), ao
Anjo da Guarda. Não são coisas de uso facultativo, somente para aqueles
que as desejam.
Manter-se na presença de Deus a cada instante,
manter a vida interior e de piedade é o que permitirá à jovem ver com
olhos sobrenaturais o que deve, o que é permitido e o que não é durante
seu noivado para chegar pura ao casamento.
O que todos fazem, o
que se vê sempre nos filmes, o que foi lido em algum livro, o que fala
algum teólogo famoso, não justifica nunca atitudes contrárias às normas
da moral católica.
Conhecer-se intimamente em vista de um
matrimônio, vivendo castamente todo o tempo que dure o noivado, sempre
na graça de Deus, é parte essencial dessa escola de amor cristão,
inspirada não por um espírito egoísta e de possessão, mas por um
espírito de renúncia, compreensão, respeito, delicadeza, verdadeira
caridade.
O noivado será conveniente e lícito se a convivência
com a outra parte provocar uma maior santidade, se a vida interior, o
amor de Deus e a graça na alma crescem e se tornam mais nítidos
conduzindo a uma vida exemplar.
LAUS DEO
Pe. Ricardo Olmedo
Professor de Moral no Seminário Internacional Nossa Senhora Corredentora.